quarta-feira, 12 de março de 2008

Brasileiro é solidário?

Outro dia, caminhando por Moema, quase fui atropelada. Eu já estava no meio da travessia, na faixa de pedestres, num cruzamento sem semáforo e um carro freou em cima da minha perna. Olhei pro motorista. Um moleque, de seus 19 anos. Eu disse: “Estou numa faixa de pedestres”. Resposta: “É, mas vc não precisa demorar tanto pra atravessar uma rua”. Lembro de estar em Chicago, nos EUA, surpreendendo o anfitrião americano, ao demorar tanto pra atravessar a rua, na faixa de pedestres, sem semáforo. “Se vc colocar o pé no asfalto os carros vão parar, fique tranquila” – ele disse. Dito e feito. Aqui em São Paulo, a animosidade de alguns motoristas no trânsito reflete um individualismo atroz. Penso que aqui, a pressa não é inimiga da perfeição. É inimiga da COMPAIXÃO. Em nome da pressa, furam-se filas, fazem-se conversões sem dar seta, atropelam-se pedestres. Não há tempo para ouvir o próximo, não há tempo para abraçar o amigo, o vizinho, não há tempo para agachar e pegar as compras de outra pessoa, que caíram no chão...É, o brasileiro anda apressado. E uma pesquisa recente dá conta de que o brasileiro é um dos indivíduos mais desconfiados do mundo. A desconfiança é inimiga, também, da solidariedade. Porque se eu desconfio do outro, como acreditar que a gentileza é espontânea? Pior ainda: se eu não posso confiar na boa intenção alheia, como posso me doar? “Quando a esmola é muita o santo desconfia”. Um ditado que o brasileiro adora. Que pena. Felizmente o voluntariado no Brasil vem crescendo. As pessoas estão descobrindo que doar-se por uma causa, faz bem. Talvez porque seja o caminho natural do ser dito “racional” ser feliz...é prazeroso ser bom. É gostoso levar carinho a quem precisa, um abraço, uma atenção, nem que seja apenas ouvindo. Sem a tal da pressa. Mas ainda falta essa compaixão ao brasileiro – o colocar-se no lugar do outro. Será que o moleque que quase me atropelou nunca é um pedestre, no seu dia-a-dia? Com certeza é. Mas no momento em que freou em cima da minha tíbia, esqueceu disso. A resignação, o conformismo do brasileiro, também é inimigo da compaixão e da solidariedade. Quando tento mobilizar um grupo qualquer em torno de uma causa, geralmente ouço: “Ah, não adianta”. De onde vem isso? Eu gostaria que os pensadores, os intelectuais, se debruçassem sobre o tema: por quê diabos o povo brasileiro tem tanta dificuldade em mobilizar-se, como nação? Porque somos sempre tão parecidos com os cordeirinhos, abaixando a cabeça para as decisões lá “de cima” e esperando que “alguém” venha resolver nossos problemas por nós? Diante de um mal atendimento qualquer, qtos se unem para reclamar? Será que é resquício do Brasil-colônia? Mas os EUA tbém eram uma colônia. E a capacidade de mobilização deles é um exemplo. Acompanhe o processo eleitoral lá e vc vai entender melhor do que estou falando. Até quando seremos assim? No último sábado, como nos últimos anos de minha vida tenho feito, risquei do meu dicionário as palavras “pressa” e “resignação”. Fui dar um abraço forte e demorado numa amiga especial, sem pressa. E decidi, com ela, me engajar numa causa, com garra, sem resignação ao “Ah, não adianta”. Porque se não adiantar, pelo menos eu lutei, junto com ela e tantos outros blogueiros. Prefiro morrer lutando, do que viver na passividade, abaixando a cabeça. Nós precisamos mudar nossa mentalidade. A solidariedade e a capacidade de mobilização também são demonstrações de inteligência, porque a sociedade funciona muito melhor assim. Um dia a gente chega lá. E tem que começar com você, que está lendo esse texto. Abraço!
Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida