terça-feira, 8 de abril de 2008

Flavia, lindo anjo adormecido


Esta linda menina é Flavia, quando tinha 9 anos. Filha de Odele Souza, mãe-guerreira, uma brava, uma lutadora. Ela que, tão e mais mãe do que eu, convive com a dor e o desafio duplo de dar amor à filha em coma vigil (um tipo de coma em que a pessoa abre os olhos durante o dia e os fecha durante a noite) e ainda acha forças pra ALERTAR A SOCIEDADE sobre o perigo oculto das piscinas, em condomínios, em clubes e academias E LANÇAR UM GRITO DE PROTESTO CONTRA A LENTIDÃO DA NOSSA JUSTIÇA, através de seu blog, "Flavia vivendo em coma" .
Odele consegue, com seu blog, 337 visitantes por dia, de várias partes do mundo. É uma obstinada. Não em conseguir câmeras e holofotes sobre Flavia. NÃO. Ela não quer jornalismo sensacionalista. Ela quer que ACORDEMOS, enquanto Flavia dorme...Acordemos para o fato de que não temos a menor segurança nesses "tanques de água". Por pura negligência, o risco existe e faz vítimas, mas os acidentes são pouco noticiados. Alguns deles: nos EUA, uma menina teve parte de seus intestinos sugados por um ralo de piscina. No Brasil, um menino morreu sugado pelo ralo de um tobogã, num parque aquático do Nordeste. Em São Paulo, uma moça morreu afogada com os cabelos presos no ralo de uma piscina de hidromassagem, num motel, em Pinheiros. E FLAVIA, essa menina absolutamente linda que vemos na foto, no dia 6/01/1998, em Moema, teve seus cabelos presos no sistema de sucção da piscina do prédio onde morava. São réus no processo a Jacuzzi do Brasil, fabricante do ralo da piscina, a AGF Seguros e o condomínio Jardim da Juriti. O processo segue para Brasília nestas próximas semanas, para julgamento em última instância.
Se na Blogosfera, a solidariedade das pessoas não mostra limites, na grande mídia o caso foi esquecido com o tempo. Sufocado pela mediocridade geral do que nos é imposto pelas emissoras de TV e por algumas publicações sem qualquer valor informativo.
Eu sou jornalista e estou lutando pela divulgação do caso de Flavia, pois silenciosamente outras crianças, adolescentes, adultos, eu e você, estamos correndo o mesmo risco.
A voz de Flavia se calou no fundo daquela piscina. E nós, jornalistas, vamos ficar calados, com tantos meios à nossa disposição? Até quando? Até quando trocaremos a oportunidade de ajudar quem precisa da nossa voz, trocando esses apelos pelas pautas que são simplesmente "bolas da vez", o que dá audiência? É claro, como empregados, temos que cumprir o que a chefia manda. Mas façamos nossa parte também, "correndo por fora". Estamos sendo cúmplices da sórdida prática de transformar seres humanos em índices do Ibope. A pequena Isabella Nardoni será mais uma, sua mãe será mais uma. Daqui a alguns meses, quem vai se lembrar? Só os produtores dos programas de retrospectiva, no final do ano. Sua mãe, Ana Carolina, diz que pretende se envolver no trabalho com uma ONG de combate à violência. Algum jornalista irá ajuda-la na divulgação?
A Imprensa noticiou o acidente com Flavia assim que aconteceu. Depois, o caso foi esquecido, como tantos outros. Ela está há 10 anos em coma, com as inúmeras sequelas que os anos sem movimentar-se deixaram em seu corpo. Os melhores anos de sua vida foram jogados ralo abaixo, numa piscina.
Colegas jornalistas: somos, na maioria, simples subordinados nas redações. Outros, como eu, autônomos. Mas nada justifica nosso silêncio, porque temos o tal do "Quarto poder" nas nossas mãos, de uma forma ou de outra. Temos uma arma na mão, sim: a palavra. Podemos fazer a diferença.
O caso Flavia, 10 anos depois, É UMA GRANDE PAUTA, com dois possíveis enfoques: segurança nas piscinas e lentidão no julgamento de um processo em que as responsabilidades estão mais do que claras.
Sejamos profissionais, cumprindo nosso dever de informar, de alertar a sociedade. Mas, acima de tudo, sejamos mais humanos.

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Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida