sexta-feira, 18 de abril de 2008

Alzheimer: estímulo e carinho retardam a evolução da doença





Em 1999, me mudei para o bairro do Limão, zona Norte de São Paulo. Morei lá por um ano.
Dona Antonieta era uma vizinha de 78 anos de idade, vítima de Alzheimer. Já não tinha expressões no rosto. Não sorria, não falava, parecia não reconhecer ninguém...mas tinha um olhar firme, por vezes desconcertante, como a querer desesperadamente dizer algo.
Eu tinha meu filho André, de 2 anos e Adriana, com uns 8 meses de vida. Encontrávamos dona Antonieta na rua, passeando com a enfermeira. Erguendo minhas crianças nos braços, incentivava-os a fazer carinho, dar beijos. Não recebíamos de volta nenhum sorriso, nenhuma reação. Mas repetíamos as atitudes todos os dias.
Os filhos dela diziam: "Ah, não tem mais jeito, não tá mais nesse mundo". E tiraram dela o direito de conviver com os netos, com o restante da família. Raramente a visitavam. Foi praticamente largada na casa, com as enfermeiras, que se revezavam. A Medicina já sabe que privar o doente de Alzheimer da convivência social só agrava o problema.
Eu a visitava sempre com minhas crianças. Um dia, ela estendeu o braço como a querer pegar minha bebê. Eu e a enfermeira, colocamos Adriana nos braços dela. E ela a sustentou, colocando a mãozinha esquerda, já atrofiada, sobre Adriana. Espontaneamente.
Momento inesquecível. Que você pode ver na foto acima.
O que tenho como experiência neste e em outros casos, de aparente ausência de atividades cerebrais, é que vale a pena estimular o doente. Levar carinho, o toque, um olhar amoroso, uma conversa agradável, por mais que não se saiba se a pessoa ouve, reage retribuindo ou não.
Porque, se delimitar as atividades cerebrais ainda é um mistério para a Ciência, nós, leigos, podemos ter uma certeza: o coração daquele ser humano continua pulsando e sentindo.
Exatamente como o seu.
Dona Antonieta faleceu há alguns anos. Mas deixou em mim e nos meus filhos, a grande lição da solidariedade: sempre, sempre vale a pena estender a mão ao próximo, que pode estar mais próximo do que você imagina. Nunca esquecerei aquele colinho que ela deu à minha filha, de presente.

6 comentários:

Susanna Martins disse...

Ficamos mais doentes ainda por falta de amor, carinho, amizade e compreensão. Que história linda essa que vc ajudou a construir!
Tenho certeza que se a família dessa senhora tivesse ficado ao lado dela, ela teria se sentido muito melhor.
parabéns, vc fez sua parte, ficou ao lado dela até o fim, fez parte da familia dela!!
Linda descrição!!
abraços

Susanna Martins disse...

Ficamos mais doentes ainda por falta de amor, carinho, amizade e compreensão. Que história linda essa que vc ajudou a construir!
Tenho certeza que se a família dessa senhora tivesse ficado ao lado dela, ela teria se sentido muito melhor.
parabéns, vc fez sua parte, ficou ao lado dela até o fim, fez parte da familia dela!!
Linda descrição!!
abraços

Odele Souza disse...

Esta é mesmo uma bonita história Paula. De amizade, solidariedade, afeto e prova que o carinho ainda é o melhor caminho.

Um beijo e bom domingo.

Jornalista Azarado disse...

Grande lição!!
O Amor ainda é um ótimo remédio para todos os males, sim... É inegável que Ele fortalece as pessoas... Fico com muita pena que essa senhora foi abandonada pela família.. Isso é tão revoltante.. Uma pessoa que criou uma família e, na hora que precisa dela, é largada na mão de estranhos, sozinha no mundo... Ainda bem que há pessoas como você e sua família, que, pelo visto, não negam carinho e Amor as pessoas. Como disse já algumas vezes em meus textos, "tudo o que precisamos é Amor"... Isso iria mudar demais nosso mundo.. Seria muito melhor, um lugar muito mais agradável para se viver....

Blogger disse...

O ser humano ainda tem muito o que aprender... Por que será que alguns não percebem que dar amor e carinho é um somatório para a alma de quem dá e de quem recebe?...Por que será que alguns não percebem que absolutamente tudo é passageiro?... Adorei seu relato! Parabéns!

Andre LF disse...

Oi, amiga!!Bela história, belo exemplo.O idoso já é marginalizado, ainda mais se sofrer de um mal como este.Ele precisa ser tão amado quanto qualquer de nós.Cuidemos de nossos querido num momento que pode ser sempre o último...
Bjokaz, valew!!
Andre

Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida