terça-feira, 29 de julho de 2008

Um pouso para a morte

Dia 17 de julho de 2007, início da noite.
Levando a gente pro aeroporto de Guarulhos, o taxista recebe aviso pelo rádio: "Um avião atravessou a pista em frente ao aeroporto de Congonhas e entrou no prédio da TAM. Mas parece que era avião de carga e tava vazio, taxiando". Não haviam informações precisas ainda.
Aquela noite tava carimbada pra ser triste. Esquecemos o documento da nossa filha mais nova e não pudemos embarcar pras nossas sonhadas férias em Pernambuco, pegando carona com o Marcos, que ia pra lá participar de um congresso. Choramos todos, nos despedindo do meu marido, que teve que ir, de qualquer jeito.
A essa altura, já se sabia que o avião em Congonhas tinha explodido, lotado de passageiros. Me encaminhei com as crianças para a fila do táxi - fazer o quê...
No saguão, aeromoças e comissários se abraçavam, berravam de desespero pelos colegas mortos.
Se o fim de uma viagem, quando o avião pousa, é, pela lógica, o alívio dos passageiros e de quem os espera em terra, como acreditar que a morte coletiva veio quando a máquina já estava no chão?
Absurdo. Incompreensível. Inaceitável tragédia.
Não havia taxista disposto a nos levar de volta, tamanho era o caos nas redondezas do nosso bairro, ao lado de Congonhas. Eu, com as crianças e as malas, sem saber como voltar pra casa. Um taxista disse: "A senhora tá louca, dona, que vou pra lá. Os bombeiros interditaram todas as avenidas em volta". Liguei para o Marcos, que a essa altura já tinha embarcado. Ele conversou com o homem, sugerindo uma rota alternativa. Como é duro ter que ensinar caminho de trânsito para um profissional que tem obrigação de saber se virar numa hora dessas!
Pegamos a Marginal Pinheiros. Dalí, já pude avistar a longa torre de fumaça negra. Lembrei das chaminés dos campos nazistas.
Corpos também ardiam alí. Velhos, jovens, crianças.
Meu bairro estava sem luz. Ao sair do táxi, aquele cheiro pairava no ar. Invadia a casa, grudava nas cortinas...cheiro de borracha queimada misturada com óleo, fuselagem e gente. O barulho era ensurdecedor: dezenas de helicópteros de emissoras de TV sobrevoando a casa a noite toda. Pela madrugada adentro, aquele barulho e aquele cheiro inesquecível. Se eu fechar os olhos ainda posso sentir. Da janela dos quartos dos fundos, eu via o clarão das chamas, subindo. Felizmente eu só via isso e a fumaça.
Tive dó dos moradores dos andares mais altos dos prédios, em volta do local. Convidados a assistir a um espetáculo fúnebre, macabro, pelo qual jamais teriam pago ingresso. Foram dias e dias testemunhando o trabalho dos bombeiros, apagando o fogo, recolhendo pedaços de gente. Pedaços de pessoas. Teriam estes moradores fechado a cortina? Se ausentado de casa? Ou simplesmente teriam desistido de abrir as janelas?
Naquela noite, desolados, eu e minhas crianças dormimos juntos, abraçados, tentando esquecer que tanta gente estava morta, praticamente no nosso quintal. Nossa sensação, naquela noite e nas seguintes, foi de intenso luto. Tristeza pela perda de vidas que sequer conhecíamos.
Vimos, tempos depois, a implosão do prédio da TAM. Uma sirene alta tocou e em minutos tudo veio abaixo. Como se derrubar tudo apagasse a lembrança da tragédia.
Não apagou. Até hoje, passar pelo local é difícil. Aperta o peito. Tento fazer outro caminho.
É um pequeno cemitério sem corpos.
No aniversário de um ano da tragédia, manifestações dos familiares. Um minuto de silêncio - contra a eternidade do silêncio de quem morreu.
Uma bandeira do Brasil foi hasteada e está lá até hoje. A meio palmo. À noite, é iluminada por holofotes.
Os tapumes que escondem o que restou dos escombros foram pintados de azul. Com estrelas brancas, representando cada vítima.
Ainda não se sabe se o local abrigará um memorial. E pra variar, ninguém assume a responsabilidade pelo acidente.

5 comentários:

Odele Souza disse...

É isto mesmo Paulinha. Ninguém assume responsabilidade não se paga por nada. E o pior, não são cobrados pela justiça.

Um abraço.

Jornalista Azarado disse...

Voltou arrebentando hein Paula...

Que tragédia... E sabem vou começar meu comentário pela sua última frase, de que ninguém asusme a culpa pela tragédia. Essa, na verdade, é a menor das minhas preocupações. O acidente já aconteceu, 199 pessoas perderam a vida e achar um culpado não vai trazer elas de volta, infelizmente. Isso só vai aliviar um pouco a dor dos familiares e amigos, que terão em quem descontar a raiva e a tristeza.. o que me preocupa é que não há quem apareça para solucionar isso e evitar que aconteça novamente. Não pode deixar uma tragédia assim virar passado. Ela tem que ser presente para que nunca mais ocorra outra. Deve-se tomar as devidas ações de segurança para que centenas de vidas sejam poupadas. Um cenário como esse não pode aparecer todos os anos.

E que dor só de ler e pensar no sofrimento dos parentes. A vontade que eu tenho, nesse momento, é correr e abraçar as pessoas que amo, minha familia, e poder ficar ali, com elas, aproveitando cada segundo a presença dessas pessoas maravilhosas e essenciais na minha vida... Afinal, a qualquer momento elas podem não estar mais lá...

=(...

Susanna Martins disse...

Nessas horas todos somem, só quem sabe da dor é quem vive ou viveu tudo isso!!
BEijooos

Coisas que Escrevo disse...

Puxa, Paula, apesar de eu estar longe, acompanhei, como pude, o que aconteceu em Congonhas. Mas nada, nem nenhum outro texto conseguiu me emocionar tanto quanto voce... Amiga, eh triste um fim assim...

Beijos

Paula Calloni disse...

Nessa semana soube que a Prefeitura decidiu implantar uma praça no local. Uma praça? Alguém vai ter vontade de levar crianças lá, alguém vai ter paz de consciência pra relaxar e ler um livro, ou chupar um picolé ou algum vendedor de balões coloridos terá coragem de ganhar a vida alí dentro, onde tanta gente perdeu a própria? Quanto desrespeito pela vida humana.

Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida