segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Márcia: fim da história?


Talvez vocês nem acreditem, mas eu já tinha 20 anos quando aprendi a andar de bicicleta.
Catei a magrela emprestada de um sobrinho e procurei uma rua calma , de preferência sem ninguém pra testemunhar meus tombos. “Hoje eu aprendo de qualquer jeito, nem que me arrebente toda”.
Na cabeça, eu tinha a imagem de um final de tarde, lá pelo meio dos anos 80, quando minha melhor amiga de então, que já devia ter nascido pedalando, insistiu em me ensinar, a bordo de sua Caloi 10.
Do alto de sua paciência quase budista, ela tentou me ensinar uma, tentou duas, eu tentei outras três e outras quatro. Nada. Éramos o quadro duplo do desânimo, nas nossas faces suarentas, sob o pôr-do-sol.
Num típico chilique de pré-adolescência, desisti e ela me chamou de covarde. Mandei a garota pra aquele lugar que todo mundo sabe qual é, mas onde nem todo mundo esteve.
A vida da gente acabou tomando outros rumos. Nesse intervalo de tempo, pude entender o que é sentir aquele ventinho no rosto, os músculos das pernas trabalhando, a sensação de que você pode tudo, de que não há obstáculos intransponíveis pra você e sua bike. E sempre que saía pra pedalar, eu lembrava dessa minha amiga, me perguntando: “Poxa, onde ela tá agora? Será que teria orgulho de me ver pedalando?”
Eu tinha certeza que sim. E queria muito mostrar "meu grande feito".
A reencontrei há uns 2 anos, pelo Orkut. Foi uma das maiores alegrias da minha vida. Ainda pudemos tomar uma cerva juntas.
Mas não deu tempo de eu mostrar que agora eu já sabia pedalar...Ela era tão idealista, tão convicta nas coisas em que acreditava, que brigou comigo por motivos políticos! Sim, ela era chique até na hora da briga. Mesmo assim, foi a vez de ELA me mandar pra aquele lugar, que todo mundo sabe qual é, mas onde nem todo mundo esteve.
Tive esperanças. De nos entendermos de novo e de eu finalmente poder mostrar: “Olha só, já sei andar de bike, igual você, como você queria tanto ver naquela tarde!”
Assim, feito criança, louca pra mostrar uma grande feito pra uma irmã mais velha.
Não deu tempo. Minha professora (frustrada comigo) de bike, morreu atropelada por um ônibus na av.Paulista. Ela era a Márcia...Márcia Regina de Andrade Prado.
Estou tentando escrever sobre o assunto há dias aqui no blog e não estava conseguindo. Como não sei se vou conseguir passar pela Paulista de novo, agora o meu ex-point preferido em Sampa. Como também não sei se vou conseguir pedalar de novo sem cair no choro.
Márcia, não sei se você ia voltar a falar comigo de novo um dia...mas se tiver um tempo, dá uma olhada aqui pra baixo...e sinta pelo menos um pouquinho de orgulho de mim, porque já sei pedalar, quase tão bem quanto você.
Fica com Deus, meu anjo. Obrigada pela sua amizade, por tudo o que fez por mim no nosso tempo de convivência. Desculpe pelas minhas bobagens...e até um dia.

(Foto: Bicicletada.Org - ela de capacete vermelho, blusa branca e dando tchau.
Pra sempre.)

10 comentários:

victorwestmann disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
victorwestmann disse...

Sexta feira (16/01/2009) eu fui no protesto da morte da Márcia na Paulista... apesar de não tê-la conhecido. :'(

E eu frequentei vários cursos do IPPB já... será coincidência?

Beijos e fique bem.

victorwestmann disse...

Sexta feira (16/01/2009) eu fui no protesto da morte da Márcia na Paulista... apesar de não tê-la conhecido. :'(

E eu frequentei vários cursos do IPPB já... será coincidência?

Beijos e fique bem.

Willian Cruz disse...

Paula, pode ter certeza que ela teria orgulho de te ver pedalando sim... Parabéns pelo texto.

Alexandre disse...

Muito triste os rumos e acontecimentos, lamento.
Certamente não é o fim, pois aquela tarde vai viver em sua memória e agora na mente de seus colegas.
Parabéns por pedalar, ela certamente ia adorar ver, e nós vamos gostar muito que você continue pedalando.

André disse...

Paula, a Marcia era (ainda é) uma pessoa maravilhosa. Apareceu na Bicicletada e lá encontrou um lugar ideal para defender seus ideais.

Ela fez parte da minha vida (e do resto da galera da Bicicletada) por curtos 8 meses, mas foram bem intensos e com muitas alegrias.

Ela esta sim, muito orgulhosa por você, como garanto que todos os que a conheciam e principalmente os companheiros nessa luta estão.

Conte com a gente para qualquer coisa, você será tão bem recebida como a Marcia foi.

Abraços

André Pasqualini

Paula Calloni disse...

A razão do título do texto é a seguinte: não, não é o fim da história. Não pode ser o fim da história, porque agora a luta é de vocês e de todos nós. De forma pacífica e inteligente, é preciso batermos o pé e os pedais, exigindo mais segurança na cidade e punição para o animal que dirigia aquele ônibus.
Contem com meu apoio.

francazona disse...

Acabei me identificando com o caso da Márcia, pois perdi meu pai em 2006, atropelado de bicicleta. Quando vi no G1 o que aconteceu na Paulista, fiquei chocado.
Acabei citando no meu blog, inclusive.
Força.

Isaac ママ disse...

Conheci Márcia na bicicletada e ela me recebeu de braços abertos como companheiro de pedaladas. Foi curto o período que passamos juntos, mas realmente valeu a pena.
E pode ter certeza do orgulho dela de ver a amiga pedalando.

Eliane Cristina disse...

Puxa amiga, eu ví esta reportagem na tv...lamentável o acontecido...
Me emocionei com a história de vocês e a bike...é nessas horas que me ponho a pensar que o próximo minuto pode ser tarde demais, mas tenho certeza de que ela ficaria feliz por você, parabéns pela conquista e lembre-se de que a alma não tem idade!!! Nós não sabemos de nada...beijos carinhosos!!!

Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida