segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Pobre homem rico

Manhã do dia 8/08, sábado.
Como de costume, enchi o porta-malas do meu carro de sacos contendo material reciclável, que deposito sempre no ponto de coleta do supermercado Pão-de-Açúcar na avenida Santo Amaro, esquina com a rua Demóstenes, aqui perto.
Após depositar o material, com minha filha de 10 anos, me dirijo ao portão de saída do estacionamento. Aí, um motorista que deveria reciclar o próprio cérebro, fechou a saída com seu carrão Hyundai, nem lembro o modelo, mas era novo, lustrado, impecável.
Atrás dele, uma fila de mais meia-dúzia de carros, esperando que o cidadão fosse em frente.
Ele tinha duas opções: seguir e entrar numa das inúmeras vagas à sua frente, ou entrar na pista ao lado da minha, para a qual ele tinha pleno acesso, pois o espaço era enorme. Mas ele preferiu empacar a fila, fechando a minha saída e exigindo que eu desse ré. A troco de quê, não sei.
Os vidros escuros do carro dele, fechados o tempo todo, impediam que qualquer um visse seu rosto. Fiz um gesto educado dando-lhe passagem, ao que ele não atendeu.
Gesticulando muito (era tudo o que eu podia visualizar), continuou me mandando dar ré.
Os motoristas atrás dele buzinando, nervosos...
Um franzino manobrista pediu ao homem que tirasse o carro da porta de saída.
Sem abaixar o vidro para conversar com o rapaz, ele se recusou.
Outros motoristas pediram-lhe o mesmo.
Ele se recusou, intransigente.
Por fim o manobrista chegou ao meu lado e disse: "A gente sabe que ele 'tá de ignorânça' mas a senhora poderia dar a ré que ele quer?"
Achei o cúmulo. E eu respondi: "Então quer dizer que vamos deixar a ignorância vencer? Por quê eu tenho que dar ré? Ele está fechando o portão de saída e empacando uma fila inteira. Ele está errado. E eu tenho que fazer o que ele quer?"
Por quê? Porque eu sou mulher, meu carro é um Corsa velho e estava empoeirado?
Pois não saí de onde eu estava. Desliguei o motor do carro e ficamos no impasse por mais de 15 minutos. O que em São Paulo, é MUITO tempo perdido.
Um gerente saiu e num gesto firme, mandou que ele tirasse o carro dalí.
Não me movi um centímetro.
Por fim, venci o homem pelo cansaço. Ele entrou na pista ao meu lado, abaixou o vidro e me falou um monte de palavrões. Nem se importou com o fato de eu ter uma criança no banco de trás, que teve que tapar os ouvidos.
Olhei bem pra ele...finalmente mostrara o rosto. Era um homem velho, de óculos escuros, que já tínhamos visto fazendo grosserias com a atendente de um dos caixas, no mesmo mercado, meses antes.
Calmamente, eu lhe disse:
"De nada adianta ter um carro bonito, novinho e essa falta de educação imensa, essa grosseria, essa incivilidade. O senhor não está apto nem a dirigir carrinho de supermercado".
E essa é a cidade onde a gente vive.
Poder econômico falando alto. O tal homem humilhou o manobrista. A bordo de seu carrão, obstruiu uma saída de estacionamento, empacou outros cidadãos atrás dele, pensou que eu me curvaria e se achou no direito de me insultar.
Acredito que sou uma motorista consciente. Em vários momentos diários nesse louco trânsito paulista, cedo a vez, dou passagem, dou seta, sinalizo da forma adequada.
Mas a intransigência e a grosseria não podem vencer impunemente.
Nessa selva, não podemos deixar que os leões sejam os ricaços que se acham donos do mundo e estacionam em cima de calçadas, param em fila dupla, fecham cruzamentos, entradas e saídas de carros.
Se você é um bom motorista, exija respeito. O segredo de um trânsito civilizado, é a boa educação. E isso não tem nada, nada a ver com nível sócio-econômico.
Muito pelo contrário, tenho percebido que algumas pessoas, quanto mais "ricas", mais se acham prepotentes e no direito de passar por cima das leis e das pessoas.
Isso não é ser rico...é ser bem pobre de espírito.

2 comentários:

Sighard Alan de Souza Seidel disse...

"Porque eu sou mulher, meu carro é um Corsa velho e estava empoeirado?"

Essa frase denota certa complexo de inferioridade.

Na verdade era pra você sair porque não se ganha muita coisa discutindo com gente tola.

Paula Calloni disse...

Sighard, o comentário denota o sentimento de poder que toma conta de quem tem carro grande e caro em qualquer grande cidade do País. Geralmente o indivíduo, que tem um carro desses, tenta compensar sua pobreza de espírito com a sensação de poder que um bem caríssimo lhe proporciona. Pura psicologia. Gente assim tbém é machista e acha que mulheres motoristas são "menos". Felizmente as seguradoras de veículos não pensam o mesmo.

Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida