terça-feira, 1 de setembro de 2009

Palavras de uma quarentona feliz


Tenho procurado trabalho já há algum tempo e nem precisa ser como jornalista.
Mas quanto preconceito o mercado mantém junto à minha faixa de idade. Outro dia, numa caminhada, o anúncio na loja de brinquedos educativos Catavento dizia : “Precisa-se de vendedora para a Semana das Crianças”. Abaixo, a observação: “Moças de 16 a 25 anos”.
Gente...o que uma moça entre 16 e 25 anos entende sobre crianças, mais do que eu, que tenho dois filhos com mais de 10? Essa garota há de saber o que é sentar para brincar com uma criança e os diferenciais de um brinquedo educativo, em relação aos convencionais? Acho que não.
Uma pessoa de 40 anos está no auge. No auge da maturidade, da responsabilidade, da experiência de vida acumulada.
Geralmente a quantidade de cabelos brancos é inversamente proporcional à vontade de dar o melhor de si, o frescor da própria segurança, do entusiasmo em continuar se sentindo útil.
O tal anúncio pedindo “meninas” de 16 a 25 se repete, à porta das lojas, como cartilha. Deparei com outro, desta vez a observação no canto do cartaz com a vaga, em letras minúsculas, na janela de uma escola de música.
Tinha me entusiasmado com o anúncio no jornal. Perto da minha casa, trabalhar numa escola de música, puxa! Mas de novo, a restrição de idade.
O que uma menina de pouco estudo (o anúncio pedia alguém com segundo grau completo – e eu entendera que era o mínimo) sabe de Antonio Carlos Jobim? Silvia Telles? Que papo vai trocar com um jovem aluno de violão, por exemplo, se nem sabe o que foi a Bossa Nova?
Cheguei a pensar em entrar num estabelecimento desses e argumentar com o dono: o que você tem contra as quarentonas?
Mas eu não vou fazer isso, porque a essa altura da vida, eu quero o desafio da conquista, mas sem perder o sossego. Não preciso provar meu valor a ninguém, só a mim mesma, me olhando no espelho, todos os dias. Sem tirar nenhum dos fios brancos que costumam me dar bom dia, de vez em quando.
Senhores empresários, abram os olhos: nós de quarenta somos caixinhas cheias de agradáveis surpresas.
No ano passado, quando cheguei aos 40, bati o seguinte texto:

Ok, eu tenho 40.
Menos pior do que eu imaginava. E uma sensação de desafio no ar.
Quatro fios de cabelos brancos. Não vou arrancar nenhum.
Ok, eu já tenho 40.
Ainda sinto calafrios quando a namorada do meu sobrinho de 25 me chama de tia.
Dizem que 40 é a Idade da Loba. Mas tá parecendo mais a Idade da Boba.
Porque a gente resolve que vai fazer nos próximos 10 anos tudo o que não fez nos últimos 39!
Quero saltar de pára-quedas.
Quebrar um violão no alto de uma montanha.
Mas já sou sábia o suficiente pra sacar que meu Yamaha vale demais pra tamanha insanidade.
E o pára-quedas, pode não abrir...mas aí é só um risco.
Mais um de todos até hoje.
Porque a gente faz 40 e parece garantia de carro vencida: ao invés de portas caindo, marchas arranhando e lanternas que não acendem, é o colesterol que dispara...coxas e tríceps balançam mais do que eu gostaria...mas minha lanterna está bem acesa e eu tenho a pele boa!
Ok, eu tenho 40.
Talvez me arrependa das bobagens que farei nos próximos dez anos, os mais bem-vividos da minha passagem por aqui. Mas se pintar remorso...well...
Lá pelos 80...eu decido o que fazer.
Viva meus 40!

3 comentários:

Ballakobako Artes disse...

Experiencia de Vida?? Experiencia de Trabalho??? Não...queremos alguém com idade entre 18 e 25 aninhos, isso é explícito no cartaz, depois por tráz dos bastidores veremos como anda esses seus 18 a 25 aninhos, se for perto de uma Barbie, uma modelete bonitinha de chamariz o emprego é seu, depois veremos se tu vende mesmo...rs

Carla disse...

Assino embaixo!
Passo exatamente por isso com meus 37 anos de vida e penso exatamente da mesma maneira!!
Que valores são estes? Que sociedade é essa?

Quem será Maria? disse...

Imaginem então, eu...do alto dos meus quase 60 anos! Duas faculdades,espanhol fluente, ingles intermediário, árabe e russo - iniciante. E nem uma vaga de vendedora numa livraria (justo eu, que amo ler e leio muiiiiito!), nem isso eu consegui, pra complementar renda...E sabem porque não consegui? eu ainda não sei, me "enrolaram" - melhor, tentaram me enrolar com explicações que não me convenceram. Saí frustrada...
De outra feita foi para uma vaga para pessoas da terceira idade, no Pão de Açucar (ainda quando morava na Paraiba). Me disseram que o meu problema era ter estudo "demais"...
E agora, José???
Continuo procurando um "bico"...
abçs

Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida