sábado, 6 de fevereiro de 2010

AACD: boa, mas podia ser melhor.

Minha filha está com os pezinhos tortos e os joelhos se encontrando. Procurei ortopedistas, vários, até encontrar o doutor Pedro Ferraro, que ao contrário dos outros, se mostrou interessado no caso. Pediu alguns exames e meu convênio só era atendido por um local: AACD - Associação de Assistência à Criança Deficiente.
A entidade é de uma reputação irrepreensível aqui em São Paulo, quiçá no Brasil todo.
Campanhas na TV são deflagradas no mínimo duas vezes ao ano, solicitando doações para ampliar as instalações da instituição.
Mas com minha filha, recebi, de cara, a primeira informação por telefone: "O atendimento em exames é feito por ordem de chegada, senhora". Fui lá às 14 horas do dia 3. A recepcionista do setor "Diagnósticos" estava num papão animado com outras colegas, mal me deu boa tarde e estendeu a mão, sem olhar nos meus olhos, sem dirigir-me uma palavra sequer.
Entreguei-lhe o pedido médico. Ela escreveu num papel um horário: "Segunda à sexta, das 8:30 às 14 hs". E só. Eu tinha sido mal-informada pela precavida ligação anterior e mesmo assim não mereci nem um "Boa tarde".
Voltei com minha filha dois dias depois, às 8:30, conforme "gentil" orientação da funcionária. Perto de mim, uma mãe com um filho de mais de 1,60 m no colo, com paralisia cerebral. Não havia lugar para acomodar o menino. Pai com a filha em cadeira de rodas, ele em pé. Nada de cadeira para ele sentar. Mãe com o filho deficiente mental e físico, que se contorcia numa cadeira pra lá de desconfortável. Em pé. Pois não havia lugar para ela sentar. Finalmente um nada cavalheiro sentado ao lado dela foi chamado pelo médico e levantou-se, de modo que ela pudesse acomodar o menininho ao seu lado, apoiado no colo. Ah, a falta de gentileza e sensibilidade das pessoas me faz cair o queixo todo dia.
Muita gente em pé havia mais de 4 horas, esperando.
A AACD fica na Zona Sul, perto do aeroporto de Congonhas. Esses pais e mães, abnegados nos cuidados com seus filhos especiais, estavam alí desde as 6 da manhã. Vinham de Sorocaba, Cajamar, Guaratinguetá. As crianças com fome...nenhuma lanchonete próxima o bastante para livra-los de perder a vez na chamada. Comecei a me sentir mal...eu e minha filha, embora atendidas pelo convênio no único lugar possível, estávamos ocupando o lugar de alguém sem qualquer alternativa de assistência médica privada e com problemas físicos ou mentais sérios, que dependem de exames com frequência. Eu, a jornalista, comecei a conversar com os pais e já tava quase sacando meu bloquinho e minha caneta...Uma vez jornalista, sempre jornalista. Sempre a curiosidade aguçada, a indignação, o querer saber o porquê de tanto absurdo, acima do meu interesse pessoal e com o fim idealista de, simplesmente,com algumas vírgulas e pontos finais de um texto, conseguir mudar a vida daquela gente, nem que seja um pouquinho. Denunciando. Como agora, dizendo: "Péra aí, tem algo errado nisso tudo".
Dê uma volta pelas quadras, no entorno das ruas Pedro de Toledo e Ascendino Reis. Você verá os pontos de ônibus lotados com mães e seus filhos deficientes no colo ou em cadeira de rodas, à espera de transporte público. Eu gostaria de acompanhar o embarque e as dificuldade dessa gente toda ao voltar pra casa depois de mais uma consulta.
A AACD é uma entidade ilibada...vive de doações...Compreendo as dificuldades pelas quais passa, oferecendo um serviço que deveria ser disponibilizado pela rede pública.
Mas essas pessoas precisam de mais do que 3 ou 4 horas em pé, esperando pelo atendimento gratuito...Não é porque é gratuito que tem que ser indigno.
Merecem ao menos, mais sorrisos das recepcionistas. Mais respeito pelas suas dificuldades, seu cansaço, sua fome, seu sofrimento. A convivência diária com isso talvez torne alguns dirigentes da entidade mais frios, "acostumados" em tratar pessoas como números de senha que aparecem num painel.
Mas nosso mundo carece de humanidade; na mais pura definição da palavra.Um pouco mais de conforto e amabilidade a pacientes tão carentes de tudo, acho que as doações cobrem. Ou não? Carinho não depende de dinheiro.

Um comentário:

rosa antunes disse...

Já há muito tenho ouvido comentários dos maus serviços prestados pela AACD. Qdo a TV mostra os depoimentos de familiares e atendidos, fico sempre com isso na minha cabeça: como será na prática estes atendimentos? Realmente, as pessoas que trabalham nesta área, não só na AACD mas em qualquer outro hospital ou setor da área médica,deveriam ter o quesito sensibilidade (como sinônimo de respeito), acima de qq outro dado de currículo.

Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida