segunda-feira, 17 de maio de 2010

Vidinha se esvaindo na minha frente

Aquele passarinho já estava me aborrecendo havia meses.
Eu tenho um cachorro salsicha, e o espertinho do Bem-te-vi pousava todo dia no fio do varal do quintal pra filar um pouco da ração do cachorro.
Enquanto esperava, defecava no chão. O Spock, como todo cão macho não-castrado, urinava em cima da sujeira do passarinho, pra marcar território.
Conclusão: o quintal todo emporcalhado diariamente e eu recolhendo água de enxágue da máquina de lavar, pra limpar toda a meleca.
Meu cachorro é um caçador nato. Pega ratos que é uma beleza. Mas nunca avançou em passarinhos. O que aconteceu naquele dia, não sei...Só sei que era um sábado de manhã, quando o tal do Bem-te-vi entrou na minha cozinha e não conseguia sair.
Acho que o Spock pensou ser uma invasão, um bicho que ia me agredir, sei lá. Lá se foi ele pra cima da ave...NHAC no pescoço. Fiquei apavorada, mas nem dei bronca no cachorro. Ele estava me protegendo.
Peguei o pobre Bem-te-vi, de quem eu reclamava tanto. Coloquei numa caixinha, bem quentinho. Ele estava vivo, havia esperança. Fiz uma papinha de fubá com água e dei-lhe aos poucos, pelo biquinho. A cada colherzinha, fui falando com o coitado: "Desculpa eu ter reclamado de você, não faz mal, pode comer a ração do Spock e fazer toda a sujeira que quiser!"
E então ele abriu as asas e inspirou profundamente. "Opa - pensei - está se recuperando!".
Depois ele expirou. Caiu pra frente, de asas abertas. E fechou os olhinhos.
Pela primeira vez na vida, junto com as crianças, vi uma "ânima" ir embora, alí, na nossa frente. Foi uma sensação muito forte, muito estranha, muito triste.
Corpos sem vida, seja de bicho, seja de gente, ainda me impressionam muito negativamente.
A morte ainda me incomoda, apesar de 4 anos de curso no espiritismo kardecista. Ainda me questiono sobre o que acontece depois e encarar um corpo morto é dar a cara pra bater, como se alguém me cutucasse, perguntando: "Até onde você realmente acredita que havia uma alma animando esse corpo?".
A repórter Eliane Brum fez uma matéria para a revista Época, em que acompanhou o dia-a-dia de alguns pacientes terminais, até o momento derradeiro. Vale a pena ler, é muito interessante. Está AQUI.
Ela viu mesmo a morte de perto. Eu mal cheguei perto disso. E ainda me culpo por ter brigado tantas vezes com o "meu" Bem-te-vi.

domingo, 16 de maio de 2010

Virada cultural em família

Como bons pagantes de impostos da Prefeitura de São Paulo, fomos dar uma olhada na Virada Cultural que acontece na cidade agora.
Eu, meu marido e meus dois filhos, de 13 e 12 anos, chegamos à Praça Roosevelt às 18:40, horário já bem passado do noticiado pela mídia e pelo próprio site.
Debaixo do vão da praça, nenhuma luz nos estandes dos entusiastas da Era Medieval. Tudo bem...era a "Idade das Trevas", mesmo, não? Nada mais coerente.
E cadê os melhores pastéis da cidade? Alardeados durante toda a semana anterior, os pasteleiros COMEÇAVAM a montar as barracas às 18:30.
Venhamos e convenhamos...onde estariam essas barracas? Já que era pra premiar o pastel como a grande iguaria de São Paulo, o mínimo que elas mereciam era uma localização no mapa. Mas não...Porque paulistano sofre até na hora de achar um pastel decente. O prefeito já cortou uma hora e meia do prazo de um trabalhador filar um pastelzinho bem recheado...ok, não é saudável, mas o problema já não é meu, certo?
Enfim, de pastel, na Virada, nada. Montaram as barracas muito tarde e não eram mencionadas nos mapas.
Mas de adolescente empunhando garrafas de bebida destilada no meio da rua e entornando pelo gargalo, tava cheio. Já tem que chegar bêbado na festa? Porque não me ocorre outra intenção, a não ser a de ficar bêbado, a de quem compra uma garrafa de bebida alcóolica e sai tomando pelo gargalo, publicamente. Esse sujeito vai estar como, daqui a 2 horas?
Nessa hora, meus filhos foram meio "Sidartha Gautama". Saíram do seu palácio de conforto para enfrentar a dura realidade. Moradores de rua, jovens de classe média bêbados de Jurupinga...
Polícia, aos montes. Mais truculentos alí no Centro, do que na maioria das vezes.
Não deixou de ser interessante descer a pé a São João, interditada para veículos, atrás de algum som. Afinal, a cidade é nossa...e não dá pra criar filho em casulo.
Nunca tive vocação pra lagarta.
Embora deixar meus rebentos terem contato com a realidade me doa, profundamente...sei que eis a melhor escola que estou dando para eles, ao ver um ser humano catando comida no lixo ou um bebê perigosamente de frente pra fogueira aquecedora, no Centro.
Desta forma ensino aos meus filhos que nunca estão sós. Estão unidos, nas mazelas de todo o resto da humanidade. Irmãos. Na riqueza e na miséria.
Isso sim, é uma virada cultural, no seu espírito.
Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida