segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nenhum ser humano merece essa vida


A foto saiu embaçada, tanto quanto o futuro desse homem


O farol fechou e de longe avistei o mendigo com saco nas costas, roupas claras mas pretas de sujeira. "Não vou dar esmola, não vou alimentar o círculo vicioso de mais um morador de rua".
Mas quando ele chegou do lado do meu carro, eu fiz o que a gente nunca faz: olhei nos olhos dele.
E que olhos. Que olhos bonitos, cor de mel, boiando no meio do rosto sujo,barbudo e de longas cabeleiras...olhos arregalados, não de droga, mas de espanto. Era como se ele estivesse se perguntando o que fazia alí, enquanto me estendia a mão.
Suspirei. Ai...peguei a carteira. Também nunca se deve fazer isso num farol, medida de segurança - e se o cara me assalta?? Mas aqueles olhos...aqueles olhos não me deixaram pensar duas vezes em tirar a única nota de dinheiro que eu tinha. Dez reais.
Abri o vidro e dei. Os olhos arregalados se arregalaram mais ainda. Parecia que ele tava vendo uma nota de 50, não de dez. Provavelmente nunca ganhou tanto no farol. E de arregalamento, os olhos se fecharam, as sobrancelhas se franziram e ele sorriu, me olhando de lado. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguia falar.
Então num impulso, eu fiz o que a gente nunca faz: peguei na mão dele. Apertei bem forte aquela mão...a mão de um homem de vida azarada, inexplicável, sem sentido lógico - porque nenhum ser humano merece viver assim.
Já faz algum tempo, os moradores de rua estão mexendo comigo. Quero fazer alguma coisa, já tentei fazer alguma coisa, mas não consegui ajuda. Era uma família de um filho só, morando debaixo de um viaduto. Mas isso fica pra outro post.
Enquanto isso, dêem uma olhada no blog do Sebastião Nicomedis, ex-morador de rua, militante da causa, que virou escritor e autor de teatro.

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Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida