terça-feira, 27 de março de 2012

Primeira vez num centro de Umbanda

Um dia recebi convite pra conhecer um centro de Umbanda. O desconhecimento e a ignorância são caminhos fáceis para o medo tomar conta...e foi isso que senti. Medo. Acima de tudo...medo.
Mas a indicação era boa. Professor, terapeuta...me garantindo: "Vai, é do bem".
O que dá pra entender com esse "É do bem?" - ora...que pra quem acredita em Deus, o lugar é orientado com os princípios DELE...o Homi...o Todo-poderoso.
E lá fui eu pra uma cidade vizinha de São Paulo, Diadema.
A dirigente do lugar me pega pela mão...escuta meus queixumes, com aquela atenção que nós, povo urbano, procuramos em médicos e terapeutas por vezes ocupados demais, e não temos.
Lá fora, muita gente. Gente chorando, gente cabisbaixa, gente com problemas insondáveis. Querendo ajuda.
Uma orientadora local explica como tudo alí funciona...e enfatiza que nada é cobrado, não há interesse finaceiro, ao contrário de tantas outras pseudo-religiões.
Começa o rito. Tudo estranho pra mim...eu via rituais afro há 35 anos! Muito tempo. E nos meus olhos de criança, sempre fora um mistério.
Os trabalhadores do lugar,todos voluntários, vestidos de branco, rodopiam...rodopiam...batem os pés...cânticos atravessam a sala. Batuques. Muita fumaça da queima de ervas. É a defumação, segundo os que crêem, desmanchando quaisquer energias negativas.
No fundo da sala, um altar mistureba: tem Jesus Cristo, Nossa Senhora, São Cosme&Damião, um árabe de turbante. Vejo tudo com a incurável curiosidade de jornalista.Assim como observo, atentamente, pessoas girando e girando, suando pelo calor debaixo de suas respeitosas roupas brancas e colares coloridos, simbolizando sei lá o que...eu não entendia nada e quanto menos entendia, mais me encantava.
Os médiuns incorporam espíritos dos Pretos-velhos. Figuras de escravos idosos que vieram pro Brasil e aqui pereceram...ou os avós destes. Na Umbanda, pelo pouco que sei, os Pretos-velhos são pilares de sabedoria, figuras que entendem tudo de ervas e "soluções" simples na busca de bem-estar e comunhão com o Divino.
Meu nome está numa lista de convidados a "conversar" com um Preto-velho. Finalmente chega a minha vez.
O médium pega em minha mão...dá algumas baforadas de seu cachimbo (dizem que limpa as energias ruins). Receitas de reza...benzimentos. Estranhamente sinto tanto respeito por aquela figura, que obedeço.E mal tenho o que dizer.
Olhando pra trás, vejo pessoas tão mais aflitas do que eu, que nem me demoro muito.
O que trago pra casa, é cheiro de cachimbo e defumação de ervas nas roupas. E uma sensação de paz. De coisa boa. De ter experimentado uma manifestação religiosa secular e autêntica...onde japoneses, mulatos, brancos e negros, se unem, em algumas noites na semana, para ajudar o próximo a ser menos tenso e encarar seus problemas com paz de espírito e compaixão. Nessa cerimônia de sincretismo religioso, ricamente típico do nosso Brasil, o que testemunhei foi a mais pura caridade, a ajuda desinteressada.
E uma frase, da orientadora local, que baniu de vez todo o meu preconceito com as religiões afro:
"Religião que não respeita a religião alheia, não é religião. Porque os canais são diferentes, mas todos levam a Deus. Ele quer união, não divisão".
Me senti protegida, alí...não quer dizer que vou virar Umbadista...mas respeito, porque me acolheu, me senti bem, leve e acarinhada.
E somos todos filhos de Deus. Ou não?
Isso é Brasil.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Mostra de Cinema Ambiental

Vai só até amanhã a mostra de cinema ambiental "Ecofalante", que em três salas da cidade traz documentários enfocando o Meio-ambiente. Os filmes foram divididos em 6 grupos temáticos: ativismo, povos e lugares, consumo, energia, água e mudanças climáticas. O festival acontece em três salas: Cine livraria Cultura, Cine Sabesp e MIS.
Como adoro documentários, fui conferir "Recife Frio",de Kleber Mendonça Filho e "A terra da lua partida", de Marcos Negrão e André Rangel, no Cine livraria Cultura, no último sábado.
Em "Recife frio", a impressionante mudança climática na cidade nordestina é de assustar...turistas estrangeiros chegam à cidade com suas indefectíveis camisas floridas esperando muito sol e céu azul...deparando com uma terra fria, cinzenta, cuja população se aglomera nos shoppings procurando abrigo do mau-tempo quase constante. Comer tapioca usando luvas de lã e cachecol deve ser muito estranho...
Já em "A terra da lua partida", Marcos Negrão nos mostra uma tribo de nômades do Himalaia, cujo patriarca decide sair da aldeia rumo à cidade mais próxima em busca de novos meios de sustentar a família. Um retrato duro e perturbador da consequência da mudança climática, que faz escassear os pastos e secar os rios.
Ao final da sessão, houve debate entre Marcos e a cineasta neo-zeolandesa Briar March, cujo filme "There once was an Island" trata da cada vez mais complicada luta pela sobrevivência dos moradores de uma pequena ilha na Nova Guiné.
Saí de lá certa de que precisamos divulgar esses filmes, resultado do esforço de seus diretores; eles, sempre numa luta quase insana de busca por recursos e às vezes tirando do próprio bolso para produzir meios de alertar a sociedade sobre o que estamos fazendo com o NOSSO PLANETA.
Não perca, são questões importantes para todos nós. Leve amigos, leve seus filhos e divulgue. Eu levei minha filha de 13 anos e ela adorou. Assim como o velho patriarca do Himalaia não sabia que existia uma terra chamada Brasil, ela também não sabia de uma aldeia de nômades, uma das últimas existentes, a ponto de se extinguir porque nós estamos poluindo a Terra a um ponto quase irreversível.
Marcos Negrão afirmou que em breve vai procurar meios de levar a projeção de sua obra ao maior número de pessoas possível. A neo-zeolandesa Briar, também. E pediram a todos nós, da platéia, que tentássemos fazer o mesmo, divulgando a mostra e comentando sobre os filmes, com nossos blogs e relações inter-pessoais.
A programação completa da mostra está nesse site:

http://www.ecofalante.org.br/mostra/programacao_s.php
Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida