sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O telefone tocou, mas era engano.

Nove longas horas. Foi o tempo que esperei dentro de um centro espírita ontem, para tentar receber alguma notícia do meu pai, falecido de câncer, há três anos e meio. Frequentei uma instituição kardecista durante quatro anos, fazendo o curso básico do Evangelho e mais o de desenvolvimento de mediunidade. Depois que meu pai morreu, me afastei.
Mas alí estava eu. Pela primeira vez admitindo que papai já  não estava mais aqui e sim "lá", onde quer que seja esse "lá", tornando a Psicografia um dos nossos poucos meios de comunicação.
Sou uma pessoa de fé. Procurei um local de confiança, indicado, numa destas incríveis "coincidências", por um amigo.
No entanto agora, meu lado jornalista, no dever de informar,  se força a aparecer mais do que o da mulher de fé.
Casas espíritas como aquela de ontem, idôneas, só funcionam com base no trabalho de caridade. Nada é cobrado. Os médiuns estão alí se doando por amor. Nós, que as procuramos, temos algum direito de reclamar? Não. Só o olhar amororoso e a atenção da dirigente, uma senhorinha iluminada e caridosa,  já deixou meu coração tranquilo.
No entanto, quando li a mensagem, "recebida" por outra médium do local, simplesmente não havia nenhum traço do meu pai. Frustração? Sim, inevitável.
Decepção? Não. Acontece! A mediunidade é um dom comum a todos, em diferentes gêneros e graus. Cabe ao médium desenvolve-la, através da fé e dos estudos.
Muitas vezes, o médium, por vaidade, não quer assumir que não conseguiu estabelecer contato ou mesmo que o desencarnado não pôde estar presente. Ou, por outro lado, na ânsia de confortar quem chora e tendo desenvolvido pouco seu dom, confunde o que é pensamento seu (do médium) com o de um falecido. Prefiro pensar que este foi o caso, ontem.
Sou obrigada a ser fria e analítica: a mensagem abria com um "Princesinha!". Meu pai nunca me chamara assim...Outro conteúdo puramente doutrinário, familiar a quem já estudou um pouco a matéria: "Estou me recuperando e depois vou para uma escola". Nenhuma novidade. Se você tem necessidade de se confortar procurando a Psicografia, meu conselho é: procure ler um pouco sobre a crença espírita kardecista antes de ir. Por mais mínima que seja sua leitura. Assim você adquire parâmetros. Recomendo "Por trás do véu de Isis", de Marcel Souto Maior, jornalista que consegue, com maestria, ajudar o leitor a separar o joio do trigo, nesse misterioso mundo da comunicação com os mortos.
Conheci pessoas alí no centro, ontem, que deram exemplos realmente tocantes de mensagens, recebidas no mesmo local, por alguns médiuns; apelidos que só o morto conhecia; diálogos, palavras, sinais, datas, fatos detalhados, que só as partes envolvidas podiam saber.
Vim para casa com aquelas três folhas dobradas na bolsa, papéis que representam uma espécie de vazio. Arrependimento? Nenhum. Prefiro acreditar que valeu a pena, pelas pessoas que conheci, pelo conforto na recepção, por manter minha esperança acesa até o último minuto. E até depois...e até agora.
Pai, um dia a gente vai conseguir. Eu mantenho minha convicção, o senhor está vivo, mas como dizia Chico Xavier, o telefone só toca do lado "de lá". Ontem ele também tocou, para várias pessoas.
Pena que no meu caso, foi engano.
Por um olhar mais atento aos pequenos detalhes da vida